Aspectos relevantes sobre a geopolítica da Copa 26

Ampliação do torneio para 48 seleções evidencia desigualdades globais, disputas estratégicas e novos espaços de influência internacional.

Por Alfredo Menezes, economista e coordenador do curso de Economia da UNINASSAU

A ampliação da Copa do Mundo de 2026 para 48 seleções criou um retrato geopolítico particularmente interessante do sistema internacional contemporâneo. Quando se observam os dados agregados de PIB, população e área territorial dos países classificados, percebe-se que o torneio representa uma combinação singular entre poder econômico, densidade demográfica, influência regional e projeção estratégica. Ao mesmo tempo, as ausências de gigantes como China, Índia, Rússia, Indonésia e Paquistão alteram profundamente o peso global efetivamente representado no torneio.

Do ponto de vista econômico, a Copa continuará concentrando enorme parte da riqueza mundial. Isso ocorre porque estarão presentes economias centrais do capitalismo contemporâneo, como Estados Unidos, Alemanha, Japão, França, Inglaterra e Brasil. A presença desses países garante que boa parte do PIB mundial esteja simbolicamente representada no torneio. Entretanto, a ausência chinesa produz um efeito geopolítico importante: a segunda maior economia do planeta não estará presente no principal evento esportivo global.

Isso enfraquece a ideia de universalidade econômica da competição e evidencia um descompasso entre poder econômico e desempenho esportivo. A ausência da China é ainda mais relevante quando analisada junto da exclusão da Índia e do Paquistão. Somados, esses três países concentram mais de um terço da população mundial. Assim, embora a Copa de 2026 tenha ampliado seu alcance demográfico com 48 participantes, ela continuará sem representar diretamente parcelas gigantescas da humanidade. Isso mostra como o futebol permanece fortemente estruturado por tradições históricas regionais: Europa, América Latina e partes da África possuem capacidade competitiva muito superior à de grandes centros populacionais asiáticos.

Do ponto de vista territorial, a Copa reunirá Estados de dimensões continentais — como Canadá, Estados Unidos, Brasil e Austrália — ao lado de microestados ou países territorialmente reduzidos, como Curaçao, Cabo Verde ou Catar. Essa diversidade reforça o caráter diplomático do torneio, no qual Estados com capacidades materiais extremamente distintas compartilham visibilidade internacional semelhante durante o evento.

Outro elemento importante é a reorganização do equilíbrio regional proporcionada pela expansão para 48 vagas. A FIFA ampliou significativamente a presença africana, asiática e da CONCACAF, refletindo uma estratégia geopolítica de descentralização parcial do futebol mundial. Isso atende tanto a interesses econômicos — expansão de mercados consumidores — quanto diplomáticos, já que a FIFA depende politicamente de votos das federações periféricas. Países tradicionalmente ausentes do cenário global passam a utilizar a Copa como “instrumento de poder”, reforçando identidade nacional, turismo e projeção internacional.

Ainda assim, a ausência da Rússia possui um significado distinto dos demais casos. Diferentemente de China ou Índia, a Rússia é uma potência futebolística relativamente consolidada, mas seu afastamento decorre principalmente do contexto geopolítico internacional após a invasão da Ucrânia. Isso evidencia como o futebol global não está isolado das disputas estratégicas internacionais e como sanções políticas podem afetar diretamente a representação esportiva de grandes potências.

A configuração da Copa de 2026 revela, portanto, uma contradição central da globalização contemporânea. O torneio é cada vez mais universal em alcance territorial e midiático, mas continua seletivo em termos de representação efetiva do poder econômico e demográfico mundial. A ausência de gigantes asiáticos demonstra que influência econômica não se converte automaticamente em capital esportivo. Ao mesmo tempo, a presença massiva de países médios e periféricos reforça o futebol como espaço singular de legitimidade internacional, no qual Estados sem grande protagonismo militar ou econômico conseguem adquirir visibilidade global comparável à das grandes potências.

Em síntese, a Copa do Mundo de 2026 funcionará como um espelho imperfeito da ordem mundial: altamente globalizada, economicamente concentrada, demograficamente incompleta e politicamente marcada pelas disputas de poder do século XXI.

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